Podcast “A Fronteira do Discurso” por Sebastião de Ribacôa.
A PORNOGRAFIA DO SETOR IMOBILIÁRIO
Há momentos em que a realidade dispensa metáforas, mas, neste caso, a palavra impõe-se: pornografia.
Não no sentido literal, mas enquanto exposição crua, exagerada e moralmente desconfortável de uma realidade que perdeu qualquer noção de equilíbrio.
O setor imobiliário em Portugal chegou a esse ponto.
Vivemos num país onde mais de 20% dos trabalhadores recebem o salário mínimo nacional. Onde cerca de 1,5 milhões de pessoas ganham até 920 euros. Onde mais de metade dos vínculos laborais não ultrapassa os 1.000 euros brutos mensais.
E, ainda assim, assistimos a um mercado de arrendamento que se comporta como se estivéssemos numa economia de salários elevados e abundância financeira.
Os números não mentem e, pior ainda, parecem não envergonhar ninguém.
As rendas continuam a subir de forma consistente, com aumentos superiores a 5% em 2026. O valor médio nacional ronda os 8 €/m².
Na prática, isto significa que uma parte significativa da população trabalha essencialmente para pagar casa. Ou pior: nem isso consegue.
E aqui entra a tal pornografia.
Não se trata apenas de preços altos. Trata-se da vulgarização do excesso e da normalização da indecência. Há algo de obsceno quando se anunciam quartos sem condições mínimas a preços de luxo, quando T0 improvisados são vendidos como oportunidades premium e quando famílias inteiras vivem em permanente estado de sufoco financeiro para garantir aquilo que deveria ser um direito básico.
A pornografia está precisamente aí: na exibição despudorada da ganância, na aceitação social de abusos evidentes e na transformação da necessidade em oportunidade de exploração. Não é apenas um problema económico, é um problema moral.
Quando se cobra o incomportável a quem não tem alternativa, já não estamos apenas perante lógica de mercado. Estamos perante uma forma sofisticada de exploração social, legitimada pela indiferença coletiva e mascarada de normalidade.
Não estamos apenas perante um mercado liberalizado a funcionar segundo as suas regras. Estamos perante um ambiente onde o oportunismo encontrou terreno fértil e onde a ausência de decoro se tornou regra. Um bem essencial, a habitação, transformou-se num ativo especulativo, num instrumento de maximização de lucro, frequentemente desligado da realidade social do país.
Durante anos, incentivou-se o arrendamento como alternativa à compra. Era o caminho moderno, flexível, adaptado às novas gerações. Hoje, essa mesma geração, e muitas outras, vê-se empurrada para um mercado que simplesmente não consegue pagar.
Comprar é proibitivo. Arrendar tornou-se, em muitos casos, igualmente inacessível.
Criámos um beco sem saída.
É fácil apontar o dedo aos Governos. E sim, cabe ao poder político corrigir assimetrias, regular excessos e garantir condições mínimas de justiça social. Mas reduzir o problema a uma falha governativa é, no mínimo, conveniente.
A responsabilidade é coletiva. É de quem especula sem limites. De quem vê na escassez uma oportunidade para inflacionar preços sem critério. De quem trata a habitação como um jogo onde vale tudo. E é também de uma sociedade que, demasiadas vezes, normaliza este comportamento sob o pretexto de que “o mercado é assim”.
Mas o mercado não é uma entidade abstrata. Somos nós.
E é precisamente por isso que importa dizer, com clareza: não vale tudo.
Não pode valer tudo. Uma sociedade que se canibaliza, onde o acesso à habitação depende de um jogo de sobrevivência económica, não é uma sociedade livre, é uma sociedade desequilibrada, fragmentada e, a prazo, insustentável.
O direito à habitação não pode ser esmagado pela lógica da ganância. Nem pode ser tratado como um luxo acessível apenas a alguns. Entre o liberalismo económico e a responsabilidade social há um espaço que tem de ser ocupado com bom senso, ética e visão de futuro.
Porque no fim…
nunca foi só sobre casas.
É sobre dignidade.
Autor
Sebastião de Ribacôa


