Podcast “A Fronteira do Discurso” por Sebastião de Ribacôa.
“GANHA QUEM BERRA MAIS ALTO“.
Nos últimos anos assistimos a um fenómeno cada vez mais evidente, mas raramente assumido com clareza: ganha quem berra mais alto. Não quem argumenta melhor, não quem pensa com mais rigor, não quem acrescenta densidade à conversa. Ganha quem ocupa espaço, quem interrompe, quem impõe ritmo, quem transforma o ruído numa forma de domínio.
E, lentamente, fomos aceitando isto como normal.
Estamos perante uma sociedade que simplifica tudo até ao limite da exaustão intelectual. Tudo se reduz a opostos fáceis: branco ou preto, certo ou errado, nós ou eles. O espaço entre os extremos desapareceu. E quando o meio-termo desaparece, desaparece também a capacidade de pensar com profundidade.
A nuance deixou de ser virtude e passou a ser fraqueza.
As conversas, que antes podiam ser espaços de construção, tornaram-se campos de afirmação. Já não se discute para compreender, discute-se para vencer. Cada intervenção parte de uma lógica de imposição: não se procura ajustar ideias, procura-se derrotar a ideia do outro.
“O que eu digo está certo. O que eu defendo prevalece.” Não como conclusão, mas como ponto de partida.
Mas há um nível mais profundo neste fenómeno, e mais perigoso: a degradação do próprio conceito de argumento.
Cada vez mais, o debate público é feito de construções frágeis, frases deslocadas do contexto, recortes emocionais e repetições disfarçadas de evidência. A ideia não precisa de ser verdadeira, apenas precisa de soar convincente no momento certo.
Meias-verdades passam por verdades completas. Simplificações agressivas substituem análise. E a coerência torna-se opcional, desde que a convicção seja suficiente.
Quando isto acontece, o objetivo já não é esclarecer. É influenciar.
E quando a influência substitui a verdade, o discurso deixa de ter compromisso com a realidade.
A partir daí, tudo passa a ser permitido: distorcer, exagerar, omitir, reorganizar factos para servir uma conclusão previamente escolhida. Não se parte da realidade para chegar a uma ideia. Parte-se da ideia para reconstruir a realidade.
E isso altera profundamente a natureza do debate.
Porque quando tudo pode ser moldado, nada é verdadeiramente estável. E quando nada é estável, a confiança desaparece.
Uma sociedade não se sustenta neste ambiente. Sustenta-se na capacidade de aceitar fricção sem destruir o outro, de ouvir sem reduzir, de discordar sem transformar a diferença em inimigo. Sustenta-se no espaço entre posições, não na eliminação desse espaço.
É nesse intervalo que o pensamento acontece.
Precisamos de recuperar um discurso mais exigente. Não mais sofisticado no estilo, mas mais rigoroso no conteúdo. Um discurso onde a pergunta importa mais do que a resposta imediata. Onde a dúvida não é defeito, mas método. Onde a força de uma ideia não está no volume com que é dita, mas na solidez com que se sustenta.
Porque quando tudo é grito, a palavra perde peso.
E quando a palavra perde peso, o debate deixa de ser construção e passa a ser reação.
E uma sociedade que apenas reage…
acaba inevitavelmente por perder a capacidade de se orientar.
Autor:
Sebastião de Ribacôa.


