Podcast “A Fronteira do Discurso” por Sebastião de Ribacôa.
“O FAROESTE MODERNO E OS JOHN WESLEY HARDIN DA VIDA“.
Há uma tendência crescente para transformar o espaço público num cenário de confronto permanente, como se a vida coletiva fosse um faroeste simbólico onde cada ideia tem de ser defendida como se fosse uma posição de combate. Nesse cenário, argumentar cede lugar a impor, e discordar deixa de ser diálogo para se tornar ameaça.
O problema é que esta lógica não é apenas retórica. Ela tem expressão real no mundo contemporâneo.
Segundo dados do Comité Internacional da Cruz Vermelha, o número de conflitos armados atingiu níveis historicamente elevados, com cerca de 130 situações ativas em 2024 e mais de 200 milhões de pessoas a viver em contextos de violência ou instabilidade. Paralelamente, observa-se uma expansão da linguagem desumanizante no discurso político e mediático, que normaliza a ideia de que a violência é uma extensão legítima do conflito de ideias.
Mas reduzir isto apenas à guerra entre Estados seria uma leitura incompleta.
Há uma forma mais silenciosa de conflito a crescer dentro das sociedades: a erosão da capacidade de reconhecer o outro como interlocutor legítimo.
Num contexto de acesso praticamente ilimitado à informação, seria expectável uma melhoria da qualidade do debate público. No entanto, o que se observa frequentemente é o contrário: a intensificação da convicção sem aprofundamento, da opinião sem validação e da certeza sem reflexão.
O problema não é a existência de opinião. O problema é a substituição do pensamento pelo posicionamento.
Cada vez mais, o objetivo do discurso deixa de ser compreender e passa a ser vencer. Não se discute para esclarecer, discute-se para dominar o espaço argumentativo. E quando isso acontece, a discordância deixa de ser parte do processo democrático e passa a ser tratada como afronta pessoal.
Este processo alimenta uma forma subtil de radicalização: não necessariamente ideológica no sentido clássico, mas comportamental. Uma tendência para reduzir o outro a categoria, rótulo ou ameaça, eliminando a sua complexidade.
Os extremismos contemporâneos, independentemente da sua origem, partilham esta estrutura: a crença de que a legitimidade do outro é condicional. Quando essa condição desaparece, o adversário deixa de ser adversário e passa a ser incompatível.
É precisamente aqui que a história se torna relevante. A violência raramente começa com o ato violento. Começa antes, na normalização da desumanização e na perda progressiva da linguagem comum.
John Wesley Hardin, figura do faroeste americano, representava uma lógica simples e brutal: sobreviver era antecipar o outro, impor-se antes de ser imposto. Uma lógica funcional num contexto sem estrutura institucional, mas destrutiva quando transposta para sociedades organizadas.
O problema é que essa lógica, em versões simbólicas, regressa hoje sob outras formas. Não através de armas, mas através da linguagem. Não através de duelos físicos, mas através de duelos discursivos permanentes.
Uma sociedade não pode sustentar-se nesta lógica indefinida de confronto. Porque quando tudo é disputa, nada é construção. E quando nada é construção, resta apenas a fragmentação.
Talvez a maior ilusão do nosso tempo seja a de que a intensidade do discurso é sinal de força intelectual. Muitas vezes é apenas sinal de insegurança argumentativa amplificada.
A soberba discursiva raramente produz verdade. Produz apenas ruído convincente.
E o risco não está apenas nos grandes conflitos visíveis, mas na erosão lenta da convivência quotidiana. Na forma como se fala, na forma como se reage, na forma como se elimina o espaço entre posições.
Uma civilização não se mede pela ausência de conflito, mas pela forma como gere a discordância sem destruir o tecido comum.
E é esse tecido que, progressivamente, se torna mais frágil.
Autor Sebastião de Ribacôa


