Podcast “Território Crítico” por Álvaro Riba.
O DESPOVOAMENTO E A MENTIRA CONFORTÁVEL DO INTERIOR.
Fala-se constantemente em fixar jovens, atrair famílias e repovoar o interior. Multiplicam-se conferências, slogans institucionais, programas de incentivo e discursos bem-intencionados. Mas quase sempre tudo se resume a medidas cosméticas: eventos pontuais, projetos avulsos e promessas sem escala real.
A pergunta séria é outra: quem pode viver onde não há emprego qualificado, acesso digno à saúde, habitação acessível, serviços públicos consistentes e perspetiva de futuro?
Sem responder a isto, tudo o resto não passa de propaganda administrativa.
Não há pessoas sem trabalho. Não há famílias sem escolas. Não há fixação sem centros de saúde, sem mobilidade, sem cultura e sem uma economia que permita viver com dignidade. O problema demográfico não se resolve com folhetos turísticos nem com inaugurações simbólicas. Resolve-se com estratégia, com visão e com coragem política.
Durante demasiado tempo habituámo-nos a aceitar a ideia confortável de que somos o “interior”. Essa palavra serve bem a Lisboa e ao poder central, porque transforma abandono em geografia e desculpa política em inevitabilidade territorial.
Mas nós não somos interior.
Somos fronteira. Somos a raia. Somos porta de entrada de um país.
A diferença não é semântica, é política.
Quem se assume como interior aceita ser periferia. Quem se assume como fronteira exige centralidade estratégica.
Há ainda um problema que raramente é dito de forma direta: muitos destes territórios foram empurrados para uma economia de dependência. Em vez de se criar autonomia económica, consolidou-se uma lógica onde a vida coletiva gira em torno da câmara municipal, das instituições sociais e de alguns serviços públicos essenciais. Isso não é desenvolvimento, é gestão assistida da decadência.
Fala-se muito em coesão territorial, mas quase sempre como linguagem técnica de candidatura a fundos. A coesão tornou-se um argumento administrativo, não uma prioridade política real. Se fosse prioridade, não continuaríamos a discutir o encerramento de serviços básicos como se fosse inevitável.
Outro erro recorrente é tratar a fixação de população como um problema de “convencer pessoas a ficar”. Isso é uma visão limitada e até paternalista. O problema não é falta de vontade de viver no território, é falta de condições reais para construir vida nele.
Também se fala de cooperação entre municípios como se fosse natural, mas na prática muitas vezes não existe visão conjunta. Almeida, Sabugal e Figueira de Castelo Rodrigo partilham problemas estruturais, mas continuam frequentemente presos a lógicas demasiado locais, quase isoladas. E isso enfraquece todos.
A proximidade com Espanha, tantas vezes repetida como vantagem estratégica, continua subaproveitada. Há muito discurso sobre a raia, mas pouca transformação concreta em redes económicas, investimento estruturado ou projetos transfronteiriços com escala.
Há territórios que não morrem por falta de potencial, morrem por excesso de resignação.
Durante décadas, o poder central concentrou investimento, serviços e oportunidades no litoral, tratando estes territórios como espaços de gestão residual. A desertificação humana que hoje vemos não é um acidente demográfico. É o reflexo direto de escolhas políticas persistentes.
Criaram-se organismos, estruturas e discursos destinados a defender estes territórios. Mas sejamos francos: onde estão os resultados práticos? Onde está a transformação estrutural? Onde está a capacidade de inverter a tendência?
Se não há resultados, então cabe aos autarcas sair da zona de conforto.
Governar não é gerir a decadência com elegância institucional. É reivindicar, confrontar e exigir. Lisboa não fica longe. O problema nunca foi a distância geográfica, foi sempre a distância política.
Não precisamos de aceitar migalhas nem de agradecer a sobrevivência. Precisamos de exigir aquilo que nos pertence por direito.
Portugal não é apenas a faixa costeira entre Lisboa e o Porto. Não se pode continuar durante décadas a repetir as mesmas políticas e esperar resultados diferentes.
Reverter esta situação é possível. Mas exige mais do que discursos de circunstância. Exige autarcas com coragem, visão e verdadeira vontade de lutar por aqueles que os elegeram.
A raia não precisa de compaixão. Precisa de poder.
Autor
Álvaro Riba


