Podcast Economia da Raia de Nuno Ferreira.
“A Economia da Raia não se salva com resignação“.
A Raia não sofre de falta de potencial. Sofre de falta de ambição económica.
Durante demasiado tempo, o interior foi enquadrado num discurso de inevitabilidade: perda populacional, envelhecimento, desertificação. Como se fosse um processo natural e não o resultado acumulado de fragilidades económicas prolongadas.
Mas o problema nunca foi a geografia. O problema foi a ausência de economia suficientemente dinâmica para reter e atrair pessoas.
Sem empresas não há emprego.
Sem emprego não há população.
Sem iniciativa privada não há desenvolvimento sustentável.
Tudo o resto são respostas paliativas.
A verdade é que o interior não está a desaparecer. Está a falhar na criação de condições para gerar atividade económica competitiva.
E isso exige um ponto de partida claro: durante anos confundiu-se desenvolvimento com construção. Criaram-se infraestruturas, parques empresariais e equipamentos públicos, muitas vezes sem que isso fosse acompanhado por uma estratégia económica capaz de lhes dar vida.
O resultado está à vista: espaços preparados para receber investimento, mas pouca capacidade efetiva para o atrair e fixar.
O primeiro passo foi dado. Agora começa o mais difícil.
Criar atratividade económica real.
Quando olhamos para concelhos como o Sabugal, o Almeida e o Figueira de Castelo Rodrigo, percebemos que existe um conjunto de ativos únicos, mas ainda insuficientemente transformados em economia estruturada.
Património histórico.
Paisagem.
Natureza preservada.
Identidade cultural.
Gastronomia.
Ligação transfronteiriça.
Autenticidade.
O problema nunca foi a ausência de recursos.
O problema foi a incapacidade de os transformar em atividade económica consistente.
E aqui importa ser claro: a dinamização territorial não pode continuar excessivamente dependente da iniciativa pública. O setor público pode e deve criar condições, mas não substitui a capacidade de investimento, risco e criação de valor da iniciativa privada.
É a economia real que cria riqueza.
É o tecido empresarial que fixa população.
É o empreendedorismo que transforma potencial em emprego.
Mas há um ponto frequentemente ignorado neste debate: não basta existir vontade empreendedora se não existirem condições mínimas de escala, mercado e articulação económica.
Durante demasiado tempo olhámos para estes territórios como somas de concelhos isolados, quando o desafio exige precisamente o contrário: escala e cooperação.
Sem escala não há competitividade.
Sem competitividade não há investimento.
É por isso que o turismo surge como um dos setores mais evidentes para desbloquear este potencial, mas também como um dos mais mal compreendidos.
Turismo não é alojamento.
A ideia de que basta construir hotéis, alojamentos locais ou turismo rural para desenvolver um território é uma visão incompleta e insuficiente.
Um território turístico não se constrói com camas. Constrói-se com experiência.
E a experiência é sempre um ecossistema.
No caso da Raia, isso é particularmente evidente.
Almeida tem condições únicas para explorar o turismo histórico e militar, com forte potencial para recriações, roteiros temáticos e valorização do património fortificado.
O Sabugal possui um ativo diferenciador no turismo de natureza, nos percursos ambientais e na autenticidade rural.
Figueira de Castelo Rodrigo reúne condições excecionais para integrar património, enoturismo, paisagem e gastronomia num produto turístico de maior valor acrescentado.
Mas nenhuma destas dimensões funciona isoladamente.
Um destino competitivo exige muito mais do que alojamento:
restauração qualificada, animação cultural, serviços turísticos, experiências gastronómicas, atividades outdoor, eventos, guias especializados, mobilidade e capacidade de criação de produto turístico integrado.
Sem isso, o território limita-se a receber visitantes de passagem, em vez de os reter.
E é precisamente aqui que o empreendedorismo deveria assumir um papel central.
Porque grande parte destas oportunidades não exige grandes estruturas de capital. Exige visão, iniciativa e capacidade de transformar identidade territorial em valor económico.
Mas a discussão não se esgota no turismo.
Existe espaço para pequenas indústrias especializadas, transformação de produtos locais, economia criativa, serviços digitais, nomadismo digital e novas formas de economia de proximidade capazes de reduzir a dependência da localização geográfica.
O desafio central, no entanto, permanece inalterado: tornar estes territórios verdadeiramente atrativos para investir.
E isso não se resolve apenas com infraestrutura.
Resolve-se com estratégia.
Resolve-se com cooperação entre municípios.
Resolve-se com simplificação administrativa.
Resolve-se com marca territorial.
Resolve-se com visão económica integrada da Raia.
Porque há uma realidade que não pode ser ignorada: muitos territórios do interior continuam a operar com baixa escala económica, pouca articulação e reduzida capacidade de criação de massa crítica.
E sem massa crítica, não há competitividade.
Os desafios estruturais existem e não devem ser ignorados. O envelhecimento populacional, a escassez de mão de obra e a reduzida dimensão de mercado são limitações reais.
Mas são precisamente essas limitações que tornam ainda mais urgente uma mudança de abordagem.
Quanto maior a fragilidade, maior tem de ser a ambição.
A Raia não pode continuar a ser tratada como periferia. É um território com história de circulação, ligação e centralidade transfronteiriça.
Pode voltar a sê-lo.
Mas isso exige uma mudança de mentalidade.
É preciso deixar de gerir o território como espaço de contenção e começar a tratá-lo como espaço de criação de valor económico.
Porque no fim, o que determina o futuro de um território não é o património que herdou, mas a economia que consegue criar.
Termino com três pensamentos:
- Ou a Raia passa de território de políticas públicas para território de economia privada, ou continuará a ser gerida, não desenvolvida.
- O verdadeiro risco não é perder população. É normalizar a ausência de ambição económica.
- O interior não precisa de mais planos. Precisa de mais empresários.
Em suma, e em jeito de conclusão, sem economia, não há futuro.
Autor: Nuno Ferreira.


