A RAIA QUE PRODUZ, A RAIA QUE AINDA NÃO SABEMOS SE ENRIQUECE.
Almeida, Sabugal e Figueira de Castelo Rodrigo têm um setor agrícola vivo e em transformação. O que os números oficiais ainda não permitem dizer é se essa transformação está a criar riqueza suficiente para garantir a próxima geração de agricultores.
Há uma tentação fácil quando se fala do interior raiano: falar da agricultura como quem fala de uma paisagem — bonita, identitária, mas condenada. A narrativa do abandono é confortável precisamente porque não exige provas. Os dados oficiais disponíveis para Almeida, Sabugal e Figueira de Castelo Rodrigo obrigam-nos, no entanto, a uma leitura mais incómoda e mais interessante: esta não é a história de uma agricultura que morreu. É a história de uma agricultura que ainda produz, ainda ocupa território, ainda emprega mais gente do que qualquer outro setor nestes três concelhos — mas que precisa de provar que consegue transformar essa produção em rendimento suficiente para convencer alguém a continuar.
Três concelhos, três agriculturas
O primeiro erro a evitar é tratar a Raia como um bloco homogéneo. Os dados do Recenseamento Agrícola mostram três trajetórias distintas, quase três economias agrícolas diferentes a operar lado a lado.
| Almeida | Sabugal | Figueira de Castelo Rodrigo | |
| Perfil dominante | Agricultura familiar e agropecuária | Agropecuária e pastoreio | Olival, vinha e culturas permanentes |
| Estrutura | Pequenas explorações dispersas | Explorações maiores, em crescimento | Estrutura agrícola relativamente forte |
| Maior aposta | Renovação e produtividade | Pecuária e pastagens | Culturas permanentes de maior valor |
| Problema central | Envelhecimento + pequena escala | Água + valorização económica | Água + escala + comercialização |
No Sabugal, entre 2009 e 2019, a Superfície Agrícola Utilizada cresceu 45,3%, atingindo 29.053 hectares, enquanto o número de explorações aumentou apenas 13,3%. O efetivo bovino subiu cerca de 64% no mesmo período. Isto não é um território a esvaziar-se: é um território a concentrar-se, com explorações cada vez maiores e uma aposta clara na pecuária.
Em Figueira de Castelo Rodrigo, a lógica é outra. Em 2019 existiam cerca de 4.515 hectares de olival, 2.052 de vinha e 1.084 de frutos de casca rija — uma especialização em culturas permanentes que, em teoria, tem mais potencial de valor acrescentado do que a produção de matéria-prima indiferenciada.
E Almeida, ainda que com uma caracterização estrutural mais difícil de fechar com os dados disponíveis, mantém a agricultura como uma atividade de peso significativo no emprego local — um dado que, por si só, já devia bastar para tirar este setor da secção das nostalgias e colocá-lo na secção da economia regional a sério.
Aliás, um dado transversal aos três concelhos merece destaque: em 2024, a agricultura e produção animal surge como o ramo com mais pessoal empregado em todos eles, segundo dados cruzados de INE e IEFP. Não é um setor residual. É, provavelmente, o setor mais importante para o emprego na região.
O erro que temos de evitar: confundir hectares com prosperidade
Aqui chegamos ao ponto que separa uma análise séria de um discurso de circunstância. É tentador olhar para estes números — mais SAU, mais gado, mais olival, mais vinha — e concluir que “a agricultura da Raia está a crescer”. Seria conveniente. Seria também, com os dados que temos, uma afirmação que os números não sustentam.
Ter mais hectares produtivos não significa ganhar mais dinheiro. Uma exploração pode aumentar de dimensão, aumentar a produção, e continuar sujeita a margens reduzidas, custos elevados, dependência de apoios, falta de mão de obra e problemas estruturais de água — como acontece de forma diferente, mas real, tanto no Sabugal como em Figueira de Castelo Rodrigo. Produzir azeite, vinho ou carne de qualidade não é o mesmo que capturar o valor económico desses produtos: uma parte substancial desse valor pode estar a ser criada fora da região, na transformação, na comercialização, na marca.
Por isso, e sem quaisquer subterfúgios, a resposta honesta à pergunta “a agricultura da Raia está economicamente mais forte?” é: não sabemos ainda, e quem afirmar o contrário — para qualquer um dos dois lados — está a ir além do que os dados oficiais atualmente permitem confirmar. O que está demonstrado é uma transformação do modelo agrícola. O que não está demonstrado, por falta de dados cruzados e comparáveis para os três concelhos, é que essa transformação se traduza num aumento equivalente de rendimento agrícola.
Esta distinção entre peso territorial e peso económico não é um pormenor técnico. É a diferença entre escrever um artigo de propaganda e escrever um artigo de opinião com informação que sirva para alguma coisa.
Se aceitarmos esta moldura mais rigorosa, a pergunta interessante deixa de ser “a agricultura está viva?” — está, e ocupa mais território produtivo do que há uma década, pelo menos no Sabugal. A pergunta que realmente importa é outra: esta agricultura está a criar riqueza suficiente para garantir a sua própria continuidade?
Para responder a isto, contar hectares e cabeças de gado já não chega. É preciso olhar para o rendimento das explorações, o volume de negócios, o investimento realizado, os apoios recebidos, a capacidade de transformação agroalimentar local, o valor efetivamente capturado na venda dos produtos — e, sobretudo, a idade dos produtores e a sucessão geracional.
É aqui que a Raia enfrenta o seu verdadeiro risco. Não é a falta de terra, de água (ainda que a água seja, ela própria, um problema estrutural no Sabugal e uma aposta decisiva em Figueira de Castelo Rodrigo), nem de animais ou de olival. É a possibilidade muito real de existir capacidade produtiva sem existir quem a queira herdar. Se isso acontecer, o problema não terá sido a falta de território produtivo — terá sido a falta de continuidade económica e humana. E esse é um problema que hectares e cabeças de gado, por mais que cresçam, não resolvem sozinhos.
Dito isto, seria injusto ficar-se pelo diagnóstico. Há pelo menos quatro frentes onde a intervenção pública e privada pode fazer diferença real, e onde os dados já apontam a direção certa:
Primeiro, fechar o fosso entre produção e transformação local. Se Figueira de Castelo Rodrigo tem milhares de hectares de olival e vinha, a prioridade estratégica não é plantar mais — é garantir que uma fatia maior do valor do azeite e do vinho fica na região, através de unidades de transformação, denominações de origem mais fortes e canais de comercialização direta que não deixem o valor acrescentado no intermediário.
Segundo, tratar a água como infraestrutura, não como sorte. No Sabugal, a disponibilidade de água já limita a expansão pecuária que os números mostram estar a acontecer; em Figueira, o regadio é assumidamente uma aposta estrutural. Investimento em regadio eficiente nestes concelhos não é um extra — é a condição para que o crescimento físico já registado não bata no teto por falta de água.
Terceiro, encarar a sucessão geracional como uma política, não como uma esperança. O envelhecimento dos produtores, sobretudo evidente em Almeida, exige instrumentos concretos de instalação de jovens agricultores, acesso a terra e crédito, e — porventura mais importante — provas de que é possível viver com dignidade da agricultura nestes territórios. Sem essa prova, nenhum incentivo fiscal convence um jovem a ficar.
Quarto, e talvez o mais urgente: produzir a informação que falta. É significativo — e devia ser motivador de ação, não apenas de lamento — que ainda não exista, para os três municípios, uma base de dados comparável sobre rendimento das explorações, dimensão económica, emprego qualificado, apoios e investimento. O Ministério da Agricultura disponibiliza a base estrutural das explorações agrícolas entre 1989 e 2023, que é precisamente a fonte que permite fechar esta análise ao nível do rendimento e não apenas da superfície ocupada. Sem esse cruzamento, continuaremos a discutir a agricultura da Raia com metade da informação necessária.
A Raia não precisa de mais discursos sobre a “resiliência” do interior. Precisa de dados que digam, com números, se essa resiliência está a ser paga a quem a sustenta. Almeida, Sabugal e Figueira de Castelo Rodrigo mostram, cada um à sua maneira, que o território agrícola não desistiu: ganhou escala na pecuária, especializou-se em culturas permanentes, continua a ser a maior fonte de emprego local. Mas ocupar território e criar riqueza são coisas diferentes, e só quando tivermos os dados de rendimento, investimento e sucessão geracional saberemos se esta agricultura está, de facto, a ficar mais forte — ou apenas a resistir com mais hectares.
Até lá, a honestidade exige dizer o que os números permitem e não mais do que isso: a agricultura da Raia ainda produz. Falta provar que ainda compensa.
Autor: Nuno Ferreira


