Podcast Economia da Raia de Nuno Ferreira.
A REVOLUÇÃO QUE NINGUÉM QUER DEBATER.
A pergunta não é se a inteligência artificial vai substituir trabalho humano. Isso já está a acontecer. A pergunta é porque é que ninguém com poder de decisão está publicamente a preparar a resposta.
Reparem que faço questão de separar as duas coisas. Não questiono a evolução em si. As sociedades sempre evoluíram através da mudança de paradigma produtivo. Nómadas tornaram-se sedentários. Sedentários tornaram-se agricultores. Agricultores tornaram-se operários. Operários tornaram-se técnicos e gestores de uma economia industrializada. Cada transição destruiu um modo de vida e construiu outro, e ninguém em sã consciência lamenta que tenhamos deixado de caçar mamutes. Se a história fosse só isto, a resposta política seria simples, esperar que o mercado se reorganize, como sempre se reorganizou.
Há quem me diga exatamente isso. Que estou a ser alarmista, que cada revolução tecnológica gerou o mesmo pânico e que, no fim, apareceram sempre novos empregos para substituir os antigos. O tear mecânico não acabou com o trabalho, criou fábricas. O computador não acabou com os escritórios, criou programadores. É um argumento respeitável e, até agora, historicamente correto. Mas assenta todo numa premissa que desta vez não se verifica, e é essa premissa que quero desmontar antes de chegar às consequências práticas.
Todas as revoluções anteriores aumentaram a produtividade humana sem dispensar o humano. Deram-lhe uma alavanca, um motor, uma máquina que fazia mais depressa aquilo que as mãos já faziam, mas que continuava a precisar de mãos a operá-la. O que está a acontecer agora é diferente na natureza, não apenas no grau. Pela primeira vez, uma tecnologia consegue executar diretamente tarefas cognitivas que antes constituíam o núcleo do trabalho humano. Não é um instrumento que o trabalhador usa. É um trabalhador que dispensa o anterior. É por isto, e só por isto, que a comparação histórica deixa de servir de consolo.
E não é hipótese, é facto consumado. Há tradutores, revisores de texto, desenhadores de imagem, técnicos de apoio ao cliente, analistas de primeira linha, programadores júnior, cuja função, tal como existia há cinco anos, simplesmente já não existe da mesma forma. Não desapareceram todos de um dia para o outro. Foram-se esvaziando, tarefa a tarefa, até restar pouco do posto de trabalho original. Há profissões que já morreram só que ainda não recebemos a notificação. Se isto já está a acontecer a esta velocidade em profissões que exigem qualificação e pensamento abstrato, a pergunta óbvia é até onde chega, e em quanto tempo.
Por enquanto, ficam de fora as atividades que exigem força física e destreza manual em ambientes não estruturados, um canalizador, um eletricista, alguém que remenda um telhado.
A robótica ainda não chegou ao nível de desempenho da inteligência artificial cognitiva. Mas seria ingénuo assumir que essa distância se vai manter, e é essa suposta folga temporal que sustenta grande parte do silêncio político que aqui denuncio. Se o argumento de quem decide é “ainda há tempo”, esse argumento está a encurtar-se todos os dias, e planear em cima de uma janela que se fecha não é planear, é adiar.
É esse adiamento que a fábrica ilustra melhor do que qualquer estatística, desde que a levemos a sério e não a tratemos como metáfora vaga. Imaginemos uma fábrica com cem trabalhadores. Cem salários que pagam rendas, créditos à habitação, escolas, supermercados, cafés à hora do almoço. Cem contribuições para a segurança social que financiam pensões que já hoje são pagas por quem ainda trabalha. Turnos, folgas, baixas médicas, férias, negociação coletiva, um sindicato que negoceia aumentos que depois se refletem no consumo local. É uma fábrica, mas é também um pequeno ecossistema económico à sua volta, o café em frente, a mercearia, a escola dos filhos, a farmácia, etc..
Agora imaginemos essa mesma fábrica substituída por um sistema automatizado que produz trezentos e sessenta e cinco dias por ano, sem descanso, sem salário, sem baixa, sem reivindicação, sem contribuir um único cêntimo para a segurança social. Do ponto de vista da empresa, o cálculo é simples e favorável, o investimento no sistema amortiza-se em poucos anos e, a partir daí, o custo marginal de produzir é uma fração do que era pagar cem salários. É uma decisão racional, e qualquer gestor a tomaria. O problema não está na decisão da empresa. Está no que acontece a seguir, e que nenhuma folha de cálculo empresarial é obrigada a incluir.
Os cem trabalhadores deixam de gastar no café, na mercearia, na farmácia. A segurança social perde cem contribuintes e ganha, na melhor das hipóteses, cem novos beneficiários de subsídio de desemprego, depois de rendimento social de inserção, se a reconversão profissional falhar, e falha com frequência quando não há para onde reconverter. O município perde base de arrecadação fiscal. O ganho de produtividade fica inteiramente do lado de quem detém o capital que comprou o sistema automatizado, e nenhum mecanismo redistribui automaticamente esse ganho para quem ficou de fora dele. É essa conta completa, e não apenas o despedimento em si, que continua por debater.
Há ainda um segundo problema, menos visível, mas igualmente estrutural. À medida que o trabalho humano deixa de ser o principal fator de produção, uma parcela crescente da riqueza tende a concentrar-se em quem detém o capital, os algoritmos, os dados e a infraestrutura tecnológica. A produtividade aumenta, mas os seus benefícios deixam de ser distribuídos através dos salários e passam a concentrar-se num número cada vez mais reduzido de agentes económicos. Se esta tendência se consolidar, a questão deixa de ser apenas laboral. Passa a ser uma questão de distribuição de riqueza, de equilíbrio económico e, em última análise, de estabilidade democrática.
Há um terceiro problema, talvez o mais estrutural de todos: o da procura. Se esta lógica se repetir em milhares de empresas, deixa de estar em causa apenas o emprego. Fica em causa o próprio funcionamento da economia. Uma empresa automatizada pode produzir mais e mais barato, mas continua a depender de clientes para vender. Se milhões de pessoas perderem rendimento do trabalho, quem comprará os bens e serviços que essas mesmas empresas produzem? O aumento da produtividade resolve o problema da oferta. Não resolve, por si só, o problema da procura.
É essa conta, e não o potencial da inteligência artificial, que falta discutir. Discute-se, e bem, o que ela permite. Diagnósticos médicos mais rápidos. Investigação científica acelerada. Ganhos de produtividade em quase todos os setores. Ninguém questiona isso, nem eu.
O que não vejo é o mesmo debate, com o mesmo protagonismo, do outro lado. Quem vai perder o emprego para uma máquina, e o que se faz por essa pessoa. Como se financia a reconversão profissional de milhões de pessoas cuja função desaparece antes de terem alternativa. Que modelo de segurança social sobrevive quando a base de contribuintes assalariados encolhe estruturalmente. Os atuais sistemas de proteção social foram desenhados para uma economia em que a maior parte da riqueza era gerada através do trabalho humano. Se essa relação deixar de existir, será inevitável discutir novas formas de financiamento. Adiar essa discussão não elimina o problema, apenas reduz o tempo disponível para encontrar soluções. E se o problema é global, como se evita que cada país empurre a solução para o vizinho e nenhum resolva nada.
Não tenho a resposta a nenhuma destas perguntas, e é provável que ainda ninguém tenha. Mas uma coisa é não ter resposta, outra é não ter sequer a pergunta em cima da mesa, publicamente, com nome e responsáveis políticos a assumi-la.
Deixo três pensamentos, ligados entre si, não avulsos.
Primeiro, o problema nunca foi a inteligência artificial evoluir. Foi sempre a sociedade não se preparar para acomodar quem essa evolução deixa para trás, e desta vez é perfeitamente plausível que o número de novos empregos criados seja inferior ao número dos que desaparecem.
Segundo, o argumento de que “sempre foi assim” está certo sobre o passado e pode estar errado sobre o futuro, precisamente porque, pela primeira vez, a tecnologia substitui diretamente a tarefa cognitiva em vez de apenas ampliar quem a executa.
Terceiro, quando a notificação chegar, para muitos, já será tarde para negociar os termos, e o silêncio político de hoje é uma das razões pelas quais tanta gente vai ser apanhada desprevenida.
Talvez a inteligência artificial venha a criar novas profissões, como tantas outras revoluções tecnológicas criaram. Espero sinceramente que sim. Mas esperar que isso aconteça não é uma estratégia política. É um ato de fé. E quando se governa uma sociedade, a fé nunca substituiu o planeamento.
Concluindo: a questão nunca foi se a inteligência artificial iria transformar a economia. Vai fazê-lo. A questão é outra: será esta a primeira revolução industrial em que aprendemos a produzir sem precisar das pessoas e, se for, que lugar reservamos às pessoas numa economia que já não depende delas? E quem, com poder para decidir, vai finalmente responder a essa pergunta em vez de a adiar.
Autor: Nuno Ferreira


